Rubem Braga – Mistura

Nada sei, nada sei desse caso. Apenas sei que Alice é muito branca e muito loura. A sua mãe se chama Rosa. Tudo isso veio em um telegrama que tem exatamente cinco linhas. Alice tem um corpo muito branco, de neve, um corpo que tem a cor da espuma puríssima, levíssima, que o vento da tarde espalha sobre as ondas do alto-mar. Seus cabelos são louros e seus olhos… – ai! – seus olhos não constam do telegrama. Isso não quer dizer que Alice não os possua, ou seja caolha. Os olhos estão subentendidos no telegrama, e devem ser perfeitos e lindos. Devem também ser verdes. E sendo verdes, de que verdes hão de ser? Estudei longamente olhos verdes, e principalmente dois dentre eles. Eram estriados de não sei que traços de ouro, felinos, fulvos, ruins. Há verdes límpidos, esse verde que vemos nas folhas molhadas das árvores adolescentes, quando a chuva passa e o sol fraco da tarde brilha muito louro, com meiguice. Há verdes marinhos, verdes minerais, verdes escuros que são castanhos sob a luz elétrica, negros dentro de uma sala, verdes, verdíssimos quando a luz natural os beija de lado. E porque não seriam azuis os olhos de Alice? Há por aí um azul claríssimo e suavíssimo, como aquele que vemos em certos recantos esquecidos do céu, à tardinha. É um azul singelo e antigo, cor de roupa de brim azul muitas vezes lavada.
Há tantos olhos de cores tantas olhando esta vida! Até vermelhos há muitos, vermelhos de chorar. Que os olhos de Alice fiquem sendo para vós, leitor, límpidos, belos, bem rasgados, da cor de vossa preferência. Eu por mim, que os amo verdes, afirmo em face da lamentável omissão do telegrama que eles são verdes, tão verdes como o selo de imposto de consumo nacional.
Alice, a ebúrnea Alice (ebúrnea quer dizer: branquinha), Alice tinha um defeito e uma virtude, resumidos em uma só pessoa: a sua mãe. Dona Rosa, mãe de Alice, pode ser considerada uma virtude de Alice, porque é uma excelente senhora: e pode se considerada um defeito de Alice, porque tem idéias muito esquisitas.
A sua idéia mais esquisita coube na quarta linha do telegrama: ela disse ao delegado que “Alice merecia um bacharel, tão alva e loura que era”. Disse isso debulhada em lágrimas. Alice fugira com josé Cândido. José Cândido é um brasileiro de cor negra. Isso desgostou dona Rosa, e dona Rosa berra como só as verdadeiras mães sabem berrar:
– Ela merecia um bacharel!
Calma, dona Rosa, Alice fugiu com um José que não é bacharel e que é preto. A senhora, dona Rosa, treme de vergonha ao pensar que uma dura carapinha espeta o mesmo travesseiro em que repousam os cabelos de seda loura de sua filha. Chora de amargura ao pensar que um corpo rude e preto de homem se junta ao corpo alvo e fino de Alice. Essa confusão de carnes brancas e pretas faz a senhora desesperar; e em seu desespero a senhora diz que as carnes alvas de Alice mereciam carnes de bacharel.
Calma, dona Rosa. Se a senhora quer carnes de bacharel para sua filha, aqui estão as minhas. Eu as ofereço. São fracas e mofinas, mas brancas e jurídicas. Porém, falando francamente, não creio que valha a pena.
Há dois problemas a considerar: o problema da cor e o problema do título. José Cândido não tinha nem a cor nem o título convenientes à sua filha. Mas ele raptou Alice, e as mocinhas não são raptadas facilmente como um deputado paraense. As mocinhas, quando não querem ser raptadas, esperneiam e fazem um berreiro medonho. Alice foi porque quis. Uniu seu braço alvo ao braço preto de José e partiu. As mocinhas partem assim, e não há remédio, não há.
Calma, dona Rosa. Alice está passeando no País das Maravilhas. E se aquele país, pelo qual todas as mocinhas suspiram, é gostoso e bom, que importa a cor do cicerone?
Neste país, dona Rosa, muitos brancos amaram muitas pretas. Se a senhora não acredita, eu lhe mostrarei as provas. As provas andam aí por toda parte, são dengosas e excelentes e se chamam, na linguagem corrente, mulatas.
Calma, dona Rosa, calma, dona Rosa. Alice está no País das Maravilhas. E quem sabe se ela não voltará de lá um dia para a sua casa, trazendo pelo braço uma criancinha mulata de olhos verdes? E a senhora não acha lindas, dona Rosa, as mulatinhas de olhos verdes?

Rio, fevereiro, 1935

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